Elogio a um explicador do Brasil

MESTRE ZU

Aos 94 anos, Zuenir Ventura é um jornalista que bem merece a candidatura a explicador do Brasil. Merece também que se faça um documentário sobre sua trajetória cheia de pontos luminosos. Zelito Viana diz-se “incumbido da tarefa” na primeira cena de Mestre Zu. Incumbido, imagino, pela família Ventura. Seus filhos estão visceralmente envolvidos. A livreira Elisa coassina a produção, e o jornalista Mauro é presença frequente diante da câmera. O resultado tem a cara de filme caseiro, marcado pelo carinho e a admiração pelo biografado.

Uma roda de velhos amigos e ex-colegas de redação dá a partida para uma corrente de lembranças e elogios, à beira da hagiografia. Quando se pede para falar dos defeitos de Zuenir, os encômios até redobram. O famoso gesto de atirar uma lata de tinta em Hélio Fernandes ressurge com as cores do enaltecimento.

Como realização, Mestre Zu é trivial, quase negligente. O talento do fotógrafo Walter Carvalho não aparece nas muitas cabeças falantes tomadas em ligeiros contraplongês sobre fundos insípidos e com luz chapada.

Ainda assim, o documentário se sustenta pelo valor do personagem. É bom ouvir suas façanhas jornalísticas relacionadas a Chico Mendes, ao estudo do Rio de Janeiro como “cidade partida”, à carta de Glauber Rocha que virou a célebre matéria de elogios a Geisel e Golbery. Ou à cunhagem de expressões que definiram épocas, como “amizade colorida” e “vazio cultural”. A história do mestre começou como ajudante de pintor (o pai), boy de banco, jogador de basquete e intérprete de Jango em Paris. A prisão em 1968, em cela dividida com Hélio Pelegrino, foi um castigo que virou prêmio.

O jeitão manso e simpático de Zuenir, em contraste com seu rigor no trabalho, é motivo de muita brodagem nesse filme. E também de autoelogios à profissão de jornalista, o que nem sempre se justifica pela dita grande imprensa que temos hoje.

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